Este estudo foi desenvolvido no Complexo do Alemão, conjunto de favelas localizado na Zona
Norte do município do Rio de Janeiro, e emerge de uma inquietação construída no contexto da
Residência em Enfermagem de Família e Comunidade, a partir do acompanhamento de pessoas
com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus na Atenção Primária à Saúde (APS). O
objetivo geral foi propor estratégias que promovam a autonomia e a autogestão do cuidado em
saúde por parte dos usuários da APS no Complexo do Alemão, a partir da articulação entre o
saber científico e os saberes comunitários. Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem
etnográfica, realizado na Clínica da Família Zilda Arns, com quatro participantes. A produção
dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, observação participante e registros
em diário de campo, possibilitando a compreensão das práticas, percepções e significados
produzidos no cotidiano da APS. Os resultados evidenciam a centralidade do medicamento
como signo hegemônico do cuidado, revelando processos de medicalização da vida e limites
impostos aos modos de cuidar nos territórios periféricos. O território, frequentemente
mobilizado nos discursos técnicos como determinante central do adoecimento, não emergiu
como categoria explicativa relevante na experiência concreta dos participantes, deslocando a
análise para as dinâmicas relacionais, afetivas e cotidianas que atravessam o cuidado. O estudo
também apontou que, embora o cuidado esteja inscrito em estruturas de poder, existem brechas
possíveis de atuação relacional no encontro entre profissionais, usuários e território, capazes de
produzir deslocamentos nas práticas e promover autonomia, mantendo a emancipação como
horizonte ético-político do cuidado. Nesse contexto, a caixa organizadora de medicamentos,
inicialmente produzida a partir de uma visita domiciliar e da implicação ética com o usuário e
seu cuidador, emerge como inspiração e, posteriormente, como produto técnico-tecnológico
deste trabalho, operando como dispositivo de mediação do cuidado, fortalecimento de vínculos
e ampliação da autonomia possível. Conclui-se que, embora a autonomia não assegure, por si
só, processos emancipatórios, ela pode tecer caminhos para a emancipação quando sustentada
por práticas de cuidado comprometidas com o território, com a escuta e com a reinvenção crítica
dos modos de cuidar.
Palavras-chave: Autonomia; Cuidado; Emancipação; Atenção Primária.
Resumo
Ano da defesa
2026
Data da Defesa
Orientador
Dra. Natália Helou Fazzioni
Arquivo
Parecer
Presidente da Banca examinadora
Dra. Natália Helou Fazzioni
Membro interno
Esp. Leoana Reis Marques
Membro externo
M.a Bruna Motta dos Santos
Nota
9.00
